28/04/2023 às 08h58min - Atualizada em 28/04/2023 às 08h58min

Um drama/suspense psicológico de tirar o folego

Vingança e justiça com as próprias mãos

Luciana Hage

Luciana Hage

Mini-bio: Relações Públicas. Mestre em Ciências da Comunicação.

O aclamado cineasta espanhol Pedro Almodóvar é o roteirista e diretor do filme “A Pele que Habito”, um filme de 2011, que tem Antônio Banderas e Elena Anaya como personagens centrais de uma história cheia de mistérios, que aos poucos revela as camadas mais profundas de um ser humano movido pelo desejo de vingança e justiçamento.

O filme, que é baseado num romance de Thierry Jonquet, de 1995, gira em torno da história de um médico-cirurgião plástico, Robert, e uma linda jovem chamada Vera, que é mantida presa num cômodo da mansão desse médico. Sob uma forte vigilância de uma emprega, Vera parece ser uma cobaia de um experimento sombrio de Robert.

Vera pode ser comparada a um rato de laboratório, preso numa enorme gaiola, disponível para a qualquer momento atender aos instintos científicos do doutor. Em muitos momentos ela parece resignada, clamando pela companhia daquele que a despreza e a violenta de todas as formas constantemente. Talvez por acreditar que até ali não há mais qualquer possibilidade de reverter tal situação.

O filme é capaz de provocar muitos sentimentos, na maioria das vezes não muito nobres. Angustia, medo e raiva pra começar. Depois, revolta, aflição e esperança. E pode terminar com aquele conturbado, quase inadmissível, sentimento de justiçamento, que não resolve nada e deixa um rastro de tristeza e dor. 

São muitas camadas, de fato. Nem tudo é exatamente como se estar vendo. As vezes somos levados às margens da história para compreender quão violento pode ser os mecanismos do poder que um homem pode exercer numa mulher. E assim outras importantes revelações vão se desenrolando para completar esse complexo quebra-cabeças.

Outra personagem importante na história é a filha única de Robert, Norma, que tem sérios problemas mentais e aos poucos, com ajuda de profissionais, tenta se ressocializar. Vera e Norma têm suas vidas entrelaçadas de uma forma surpreendentemente assustadora.

Duas mulheres que têm do mesmo homem sentimentos conflitantes. Com a filha é muito amor, cuidado e atenção. Com a “cobaia” é tortura e desassossego. Como pode um pai ser tão perfeito ao mesmo tempo ser um abusador? Nesse filme Almodóvar escancara as possibilidades de agência do homem que tem poder social e/ou econômico.

Aqui a arte imita a vida. Tenho certeza que muitos de nós conhecemos, ou já ouvimos falar, de homens, pais de família, religiosos muitas vezes, clamando em nome de valores de moral e dos bons costumes, ditando regras na vida alheia, mas que nas horas vagas são capazes de fazer atrocidades com mulheres extra-família. Hipocrisia que chama? 

“A Pele que Habito” não é nada leve e recomendo que assistam com o coração, e a mente, organizados. Caso contrário, preparem-se para os gatilhos, que com certeza serão ativados e, talvez, custe algum tempo para se recuperarem das emoções que ele pode provocar.

Ah sim! Outra dica é assistir na companhia de uma pessoa querida, para compartilhar percepções e sentimentos. Além de deixar a sessão menos pesada.
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