05/05/2023 às 15h59min - Atualizada em 05/05/2023 às 15h59min

A diferença que acolhe

E o desafio de aceitar que não se sabe de tudo

Luciana Hage

Luciana Hage

Mini-bio: Relações Públicas. Mestre em Ciências da Comunicação.

O Sorriso de Monalisa é um filme de 2004, estrelado por Júlia Roberts e traz algumas questões bem interessantes sobre aceitação de escolhas próprias e de escolhas das outras pessoas. O que é bom para uma pode não ser para outra. Viva a diversidade!

O filme conta a história de uma professora que é contratada por uma escola muito conversadora numa cidade distante do grande centro econômico e social da capital norte americana. E lá ela vai ter de lidar com o sistema que ainda vê mulheres como meras reprodutoras do sistema machista e patriarcal.

O choque entre os dois mundos é o que mais chama a atenção no roteiro. De um lado uma mulher super bem resolvida com sua vida amorosa, que até sonha em se casar, mas isso não é uma prioridade. E de outro, uma cidade inteira que vive em função de arranjar casamentos para as belas jovens solteiras.

As aulas nesse colégio têm por único objetivo preparar as moças para serem boas esposas aos seus maridos. Todas as disciplinas e as atividades extracurriculares levam a esse objetivo.
Antes da chegada da professora as alunas pareciam bem conformadas com esse destino. Faziam festas para tirar algum sarro de tudo, mas no fundo todas queriam a mesma coisa, encontrar um bom partido para viverem felizes para sempre.

E quem fugia desse modelo ideal era tratada como a “perdida”, a “solteirona”, a “infeliz”, com o triste destino de não ser esposa e mãe. Nada de diferente com a realidade até aqui, né?!
Ou seja, não haviam escolhas para elas. Num contexto onde ou se segue um sistema ou se vive na marginalidade como desviantes, como estranhas, não é escolher, é se ver diante de uma imposição. Porque no fundo, no fundo, elas só tinham uma única possibilidade de serem reconhecidas como mulheres.

Com a chegada da professora, que vê a vida de forma diferente, a partir de um cenário mais diverso, com outras possibilidades reais de seguir no mundo, as alunas ficam encantadas. Algumas passam a admirá-la, outras se revoltam com a liberdade absoluta que supunham ter a professora. 

Falar de liberdade é sempre uma questão complexa, pois esse é um entendimento que pode variar de acordo com a cultura, o contexto e as dinâmicas sociais. Mas o fato aqui é que as alunas sentiram pela primeira vez o gosto de outros sabores que a vida poderia lhes oferecer, se elas estivessem dispostas a romper com algumas regras daquela sociedade.
Decisão difícil para muitas mulheres desde sempre. A história mostra que as que encararam a tarefa de se voltar contra um sistema consolidado, tiveram suas vidas silenciadas, apagas e outras pagaram o alto preço com a própria vida.

Vale aqui um importante apontamento, o cenário do filme se passa numa cidade norte americana, com pessoas brancas de classes média e alta. Portanto, não é discutido as questões de raça e classe. As personagens estão num contexto de muito privilégio, onde escolher é uma alternativa, ainda que difícil.

As relações entre alunas e a professora se desenrolam por afetos fortes e assim os dois lados se descobrem potentes e contraditórios ao mesmo tempo, como toda relação profunda, né?! 
Há uma cena bem emblemática, em que a professora, apesar de toda a liberdade que prega, age com intransigente diante da escolha de uma de suas melhores alunas, que decide por um caminho diferente ao que a professora imaginou ser bom.

Isso me fez lembrar de uma campanha que o governo francês fez há muitos anos atrás que proibia mulheres islâmicas de usarem seus véus em locais públicos, porque o governo entendia o véu apenas como um instrumento de opressão para aquelas mulheres, quando na verdade ele era muito mais um símbolo de religiosidade e de fé para elas. 

Sem atentar para o óbvio, o governo francês fez com aquelas mulheres o que os radicais faziam, tolheram a liberdade delas. E o pior, acharam cegamente que estavam ajudando.
Por isso, acolher as diferenças e construir juntas um mundo melhor é o grande desafio para as mulheres mundo afora. Não somos iguais e não sofremos do mesmo jeito, por isso, estejamos atentas.
Analisando um filme ou vivendo nossas realidades, que possamos exercitar mais esse acolhimento. Assim seguiremos fortes.
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