18/03/2023 às 19h35min - Atualizada em 18/03/2023 às 19h35min

Mais uma vez o Brasil ganha destaque internacional por casos de violência contra mulheres

De Robinho a Daniel Alves, MC Guimê e Cara de Sapato

Luciana Hage

Luciana Hage

Mini-bio: Relações Públicas. Mestre em Ciências da Comunicação.

Luciana Hage
Reprodução
O mês de março de 2023 não tá sendo fácil para mulheres no Brasil, especialmente. No período propício para se falar de proteção dos direitos da mulher, discute-se em rede mundial mais casos de violência explícita. Mas, quem disse que seria fácil ser mulher em qualquer mês do ano ao longo da história, em qualquer lugar do mundo, não é mesmo?

            A expulsão do cantor MC Guimê e do lutador de MMA Cara de Sapato do reality show mais assistido do Brasil na noite de ontem ganhou repercussão fora do país, pois a vítima, a influenciadora digital Dania Mendez, é uma participante também de reality show no México.

            Dania veio para o Brasil por conta de uma dinâmica entre as produtoras que comandam os dois programas, que a trouxe para o BBB-23 e levou a jogadora de vôlei, Key Alves para o México.

            A presença da nova sister mexeu com os ânimos de todos os participantes na casa do BBB. Uns violaram sua intimidade abrindo suas malas pra saber quais segredos ela poderia estar trazendo de fora.Outros se animaram com uma nova cara, depois de quase dois meses vendo sempre as mesmas. E por fim, os que a viram como um pedaço de carne exposta no mercado, necessitando ser tocada e acariciada sem permissão.

            As cenas que reverberaram na internet são revoltantes, pois mostram o que alguns homens são capazes de fazer diante de uma mulher que cobiçam. Ficam irreconhecíveis aos olhos das pessoas mais próximas, que muitas vezes tendem a “passar pano” para atitudes claramente invasivas, e por vezes criminosas.

            Todos e todas ali estavam claramente, em alguma medida, sob efeito de bebidas alcoólicas, o que é comum em qualquer balada, ou festinha entre amigos e familiares, mundo afora. Mas isso não é salvo-conduto para alguém invadir a intimidade de outra pessoa, forçando beijos e apalpando partes do corpo de quem quer que seja.

            Esse tipo de violência, infelizmente, é sentido por pelo menos 45% das mulheres brasileiras. Ao mesmo tempo apenas 5% dos homens admitem que cometeram tamanha barbaridade. São alguns dos resultados da pesquisa publicada em setembro de 2022 pelo IPEC em parceria com o Instituto Patrícia Galvão.

            No mesmo levantamento, 41% das mulheres disseram que foram xingadas ou agredidas por não aceitarem conduta invasiva dos homens. E outras 31% afirmam que já foram vítimas de tentativa ou de abuso sexual.

            Outro dado assustador, dessa vez numa pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão com o apoio da Uber, diz respeito às mulheres que utilizam transporte coletivo ou por aplicativos, onde 97% delas disseram ter sofrido assédio nesses espaços. E pasmem, 72% delas afirmam que o tempo para chegar ao trabalho influencia para aceitar ou permanecer nele. É muito difícil explicar a um homem o quão assustador é para uma mulher ter de pensar nesses pormenores.

            A Lei Maria da Penha (LMP) é reconhecida nessa pesquisa por 90% das pessoas como um importante instrumento de combate à violência contra mulher. O mesmo percentual acredita que diante de uma agressão é importante intervir para inibir casos mais graves.

            Há quase 17 anos a Lei 11.340/2006 (LMP) vem sendo um dispositivo importante para as mulheres vítimas de agressões, mas ainda é insuficiente para aplacar a fúria dos agressores, pois há regiões, como a Amazônia, por exemplo que não possuem estrutura para receber denúncias e tampouco para solucionar casos.

            O Instituto AzMina fez um levantamento em 2020 onde apontava que apenas 7% das cidades brasileiras possuíam delegacias especializadas nas denúncias de violência contra mulher. E a região Norte é a mais desfavorecida. 

            Esses números são fundamentais para se pensar em políticas públicas que assegurem às vítimas de violência os seus direitos mais básicos, como a vida e a autonomia de seu próprio corpo. Contudo, nenhum desses dados são capazes de retratar os sentimentos que tomam conta de alguém que se vê diante de um abusador. É um misto de ódio, perplexidade, incredulidade e solidão. É um medo indescritível de ser julgada pela roupa que veste, pela maquiagem que usa e/ou pelo potencial atrativo que emana naturalmente.

            Se MC Guimê e Cara de Sapato se sentiram bem à vontade para forçar contato físico com uma mulher diante de tantas câmeras, num espaço tão restrito, imagine o que não seriam capazes de fazer na escuridão de uma boate, a caminho de um banheiro. Ou ainda o que seriam capazes de fazer com uma mulher que excedeu o limite de seu corpo, ficando inconsciente diante do álcool. Não é difícil imaginar o que aconteceria porque fatos dessa natureza já foram retratados.

            E o mais assustador em todos esses episódios é perceber que sempre haverá um grupo bem articulado a duvidar das mulheres. Culpar a mulher, aliás, é algo bem comum também. O comportamento, a roupa, as intenções e a própria existência delas são questionadas. Para essas pessoas, os homens são as vítimas e as mulheres o “demônio” que tenta o pobre rapaz.

            Culpar a mulher é uma estratégia bem antiga. Eva, Maria Madalena, Cleópatra, Joana D´arc, Marilyn Monroe, Nina Simone, Tina Turner, Elza Soares, Elisa Samúdio, Klara Castanho e tantas anônimas ao longo da existência humana estão aí pra provar isso.

            E mulheres se sentindo culpadas por sofrerem assédios também é recorrente. Dania relatou reservadamente, no confessionário, que sentiu que ambos os rapazes passaram dos limites, tanto que interviu em todas as tentativas deles, mas não quis destaca-las para não os prejudicar no jogo e na vida.
É estranho ver as mulheres tendo esse tipo de comportamento, mas é comum. É o medo de mais exposição, mais julgamentos e maiores problemas. E assim vai-se levando a vida, cheias de sentimentos mal elaborados.

            É preciso que a sociedade tome consciência de que NÃO É NÃO. Independente da condição em que a mulher esteja, independente da roupa que veste. Mesmo nua a mulher pode recusar investidas sexuais ao seu corpo.

            É lamentável que seja necessário expor vítimas para que fique mais claro o tamanho da barbaridade que é a invasão do corpo alheio.
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