STF encerra sessão sobre casos de Moraes e Mendonça sem decisão após embates e pedido de vista de Dino

Sessão extraordinária atravessou o dia com discussões sobre o rito dos processos, confrontos entre ministros e questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal; Cármen Lúcia pediu desculpas ao povo brasileiro nos momentos finais

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O Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou nesta terça-feira (15) uma longa sessão extraordinária sem concluir a discussão que acabou dominando o plenário: se os casos envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça devem ser analisados separadamente ou em conjunto.

Convocada inicialmente para analisar a Petição 16.662 e decidir sobre os desdobramentos de informações da Polícia Federal envolvendo Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a sessão tomou outro rumo ao longo do dia. Questões sobre o rito adotado pelo Supremo, a relatoria dos procedimentos e o tratamento dado aos casos de Moraes e Mendonça passaram para o centro das discussões.

O mérito sobre uma eventual investigação de Moraes não chegou a ser decidido.

Após horas de debates, o ministro Flávio Dino pediu vista. Com isso, a análise foi interrompida e deverá ser retomada posteriormente. 

Fachin abre sessão pedindo serenidade

A sessão começou por volta das 10h35 sob a condução do presidente do STF, Edson Fachin.

Logo na abertura, Fachin procurou estabelecer o tom que esperava para o julgamento. Diante das divergências que já haviam se tornado públicas nos dias anteriores, defendeu que o plenário se concentrasse nos fatos e nas questões jurídicas.

“Não se julgam pessoas; julgam-se fatos e questões jurídicas”, afirmou.

O presidente da Corte também ressaltou que divergências fazem parte da atividade do tribunal, mas diferenciou o debate jurídico do confronto pessoal. Fachin sustentou ainda que caberia ao plenário decidir as questões colocadas à Corte.

A sessão, no entanto, seria marcada justamente por momentos de forte divergência entre os ministros.

Discussão sobre o rito muda o rumo da sessão

Durante a manhã, Gilmar Mendes e Flávio Dino levantaram questionamentos sobre a maneira como os procedimentos estavam sendo conduzidos.

A discussão passou a envolver especialmente a possibilidade de os casos relacionados a Moraes e Mendonça serem examinados conjuntamente.

Gilmar já havia defendido antes da sessão o adiamento da análise sobre Moraes e a apreciação simultânea dos dois procedimentos, argumentando que eles envolviam fatos relacionados e que seria necessário esclarecer previamente questões processuais.

Dino também questionou a condução dos processos pela Presidência do STF e defendeu a reunião das discussões.

Em manifestação apresentada durante a sessão, afirmou não existir previsão para que processos sob relatoria de outros ministros fossem “avocados” pelo presidente da Corte.

Fachin rebateu a interpretação e sustentou que não havia retirado processos dos respectivos relatores. A discussão sobre competência, relatoria e rito ocupou parte significativa da primeira metade da sessão.

Por volta das 13h, os trabalhos foram interrompidos e retomados à tarde.

Moraes e Mendonça protagonizam confronto no plenário

A sessão também teve momentos de confronto direto entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.

Os dois divergiram sobre a origem e a condução das apurações que levaram informações envolvendo Moraes ao plenário.

Antes mesmo do início da sessão, Moraes havia apresentado manifestação na qual negou irregularidades e classificou como “inconstitucional e ilegal” o relatório contendo as supostas mensagens atribuídas a Vorcaro. Também contestou a forma como as informações foram obtidas e levadas adiante.

No plenário, a discussão ganhou contornos mais duros.

Moraes afirmou possuir testemunhas de que Mendonça teria solicitado a inclusão de seu nome em apurações relacionadas ao caso. Mendonça negou a acusação e respondeu que a afirmação era “mentira”.

As divergências avançaram para acusações sobre possíveis motivações políticas na condução dos acontecimentos. Como se tratam de acusações feitas entre os próprios ministros e contestadas durante a sessão, elas não representam conclusões estabelecidas pelo STF.

Gilmar Mendes e Mendonça também entram em embate

Mendonça também protagonizou um confronto verbal com Gilmar Mendes.

O decano questionou a condução dos fatos relacionados ao caso e levantou suspeitas sobre possível viés político-eleitoral. Mendonça rejeitou a interpretação.

O diálogo entre os dois aumentou de tom, com Mendonça contestando diretamente as afirmações de Gilmar.

As discussões ilustraram o grau de divergência existente no plenário não apenas sobre os fatos sob análise, mas também sobre o procedimento que deveria ser adotado pela própria Corte.

Fux questiona atuação da Polícia Federal

Luiz Fux fez intervenções ao longo da sessão e levantou questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal e sobre a existência formal de investigação contra Moraes.

A discussão envolvendo a PF ocupou espaço importante nos debates porque parte da controvérsia decorre justamente da forma como informações obtidas nas investigações do Banco Master chegaram aos procedimentos relacionados aos integrantes do Supremo.

O caso teve origem em material obtido a partir do celular de Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, foram identificadas dezenas de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro e destinadas a um número associado a Moraes. O ministro nega ter praticado irregularidades. 

À tarde, ministros passam a votar sobre análise conjunta

Quando a sessão foi retomada, por volta das 15h30, o plenário passou a enfrentar a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes.

Antes de avançar sobre o mérito relacionado a Moraes, os ministros precisavam definir se aquele procedimento continuaria sendo examinado isoladamente ou se deveria ser reunido ao caso envolvendo André Mendonça.

As posições dividiram a Corte.

Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia se posicionaram pela manutenção das análises separadas.

Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin defenderam a apreciação conjunta.

Flávio Dino também vinha defendendo a reunião dos casos, mas pediu vista antes da conclusão. Como seu voto não foi computado na proclamação do resultado parcial, Fachin encerrou a sessão registrando 4 a 3 pela manutenção dos processos separados.

É justamente daí que surgiu uma diferença percebida durante a transmissão: considerando a posição manifestada por Dino, chegou-se a falar em empate de 4 a 4. Formalmente, porém, após o pedido de vista, o voto dele não integrou o placar proclamado ao término da sessão.

Dias Toffoli e Kássio Nunes Marques não participaram dessa votação.

Dino pede vista e interrompe julgamento

Depois de uma sessão que atravessou manhã e tarde, Flávio Dino pediu mais tempo para analisar a questão.

O pedido de vista interrompeu o julgamento antes que o STF definisse se os procedimentos serão definitivamente reunidos.

Com isso, também não houve avanço para a discussão de mérito sobre a eventual investigação de Moraes.

A Corte terminou o dia, portanto, sem uma decisão definitiva sobre a questão processual que dominou a sessão e sem chegar ao objeto que originalmente havia levado o plenário a se reunir.

Cármen Lúcia pede desculpas ao povo brasileiro

Já nos momentos finais, Cármen Lúcia fez uma das manifestações mais marcantes da sessão.

Depois de participar pouco das discussões durante grande parte do dia, a ministra tomou a palavra e fez uma autocrítica sobre o episódio.

Ao falar sobre sua própria atuação diante das divergências que chegaram ao plenário, afirmou que talvez pudesse ter adotado uma postura diferente para ajudar a impedir que a situação alcançasse aquelas proporções.

Cármen pediu desculpas aos colegas, ao presidente do Supremo e à sociedade.

“Eu peço desculpa ao povo brasileiro [...] porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui.”

A ministra também criticou a dimensão pública alcançada pelos acontecimentos:

“Acho que houve uma espetacularização destes casos, desta sessão mesmo, que não faz mal apenas ao Supremo nem ao Poder Judiciário, faz mal ao país.”

E acrescentou:

“O país espera de nós uma tranquilidade que eu acho que nós não conseguimos dar.”

Na votação, Cármen Lúcia acompanhou Fachin, Mendonça e Fux e se posicionou pela manutenção dos casos separados.

O que estava em discussão

A sessão extraordinária foi convocada depois dos desdobramentos de um relatório da Polícia Federal produzido no contexto das investigações sobre o Banco Master.

O documento reúne mensagens que investigadores atribuem a Daniel Vorcaro e que teriam sido destinadas a um número associado a Alexandre de Moraes. O material foi obtido a partir da quebra do sigilo do celular do ex-banqueiro.

Moraes nega irregularidades e contesta tanto o conteúdo quanto a legalidade do procedimento que levou à produção do relatório. Em manifestação apresentada antes do julgamento, sustentou ainda que parte das anotações atribuídas a Vorcaro não teria correspondência em conversas efetivamente localizadas pela investigação.

A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, questionou a validade do relatório e sustentou que o aprofundamento de uma apuração envolvendo ministro do Supremo dependeria de autorização do plenário.

Os acontecimentos posteriores também levaram ao surgimento de questionamentos envolvendo André Mendonça. A partir daí, instalou-se a discussão sobre a conveniência e a validade jurídica de examinar os dois casos separadamente ou submetê-los conjuntamente ao plenário.

O que ficou decidido — e o que ainda falta decidir

Apesar das horas de sessão, o STF não decidiu nesta terça-feira se Alexandre de Moraes será investigado.

Também não houve decisão definitiva sobre a reunião dos casos de Moraes e Mendonça, porque o pedido de vista de Flávio Dino interrompeu a análise da questão de ordem.

O resultado parcial proclamado por Fachin foi de 4 a 3 pela manutenção dos procedimentos separados.

Assim, a sessão extraordinária terminou depois de um dia concentrado principalmente em questões processuais, divergências sobre a condução das apurações e discussões entre os próprios integrantes da Corte.

O mérito que motivou a convocação do plenário ficou para depois.

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