Mendonça repete método de Moro na Lava Jato e alimenta mobilização política bolsonarista às vésperas do 7 de setembro; vídeo Mendonça e Moro

Vídeo de apoio religioso divulgado em plena crise no STF reproduz a lógica de mobilização usada na Lava Jato; Constituição e legislação processual proíbem juiz de atuar politicamente e de assumir papel de investigador

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André Mendonça divulgou um vídeo agradecendo orações, carinho e manifestações de apoio justamente quando sua atuação no STF é alvo de fortes questionamentos.

O gesto, no contexto atual, ultrapassa a dimensão pessoal e assume caráter político, sobretudo porque sua imagem vem sendo mobilizada por setores bolsonaristas às vésperas dos atos de 7 de setembro.

A postura lembra Sergio Moro durante a Lava Jato. Em 2017, o então juiz também gravou vídeo agradecendo apoio popular enquanto conduzia processos de grande impacto político, inclusive contra Lula.

Esse tipo de protagonismo é incompatível com a função de magistrado, que exige imparcialidade, serenidade e distância de mobilizações políticas ou partidárias.

No caso de Mendonça, a situação é ainda mais sensível porque ele conduz investigações que atingem personagens centrais da disputa nacional. Sua fé pessoal deve ser respeitada, mas não pode se confundir com o exercício da magistratura.

O STF não precisa de ministros transformados em líderes de torcida, e sim de juízes comprometidos com a Constituição e com tratamento igual para todos.

André Mendonça divulgou nesta sexta-feira (4) um vídeo dirigido a fiéis no qual agradece mensagens de oração, carinho e solidariedade. O ministro afirma que as preces recebidas têm sido fundamentais para sustentar ele e sua família. A gravação surgiu justamente no auge da crise envolvendo sua atuação no STF e passou a circular amplamente entre apoiadores e lideranças religiosas.

O gesto não pode ser analisado como se fosse apenas uma manifestação privada de fé. Mendonça é ministro do Supremo, está no centro de uma disputa institucional e sua imagem vem sendo incorporada ao discurso político bolsonarista às vésperas dos atos de 7 de setembro. Flávio Bolsonaro e aliados estão usando a crise do STF para impulsionar a mobilização nas ruas.

Assista ao vídeo comparativo entre os vídeos de Mendonça e Sério Moro:

Na avaliação do Jornal Pará, o vídeo acaba funcionando como mensagem político-religiosa para esse ambiente de mobilização. O problema não está em Mendonça professar sua fé ou agradecer orações. Está em um magistrado transformar apoio pessoal em demonstração pública de força num momento em que grupos políticos apresentam sua atuação judicial como parte de uma batalha contra adversários.

Esse método já foi visto na Lava Jato. Em março de 2017, Sergio Moro também gravou um vídeo agradecendo o apoio popular recebido durante a operação e dizendo que essas manifestações o ajudavam em um momento difícil. Menos de dois meses depois, em 10 de maio, Moro interrogaria Lula no processo do triplex.

A história terminou de forma bastante diferente da imagem de juiz-herói construída naquele período. Em 2021, o STF reconheceu a suspeição de Moro no caso do triplex e concluiu que ele havia demonstrado parcialidade na condução do processo. O próprio Supremo registrou que houve motivação política na atuação analisada.

É importante explicar que magistrado não possui liberdade política equivalente à de qualquer cidadão. O art. 95, parágrafo único, III, da Constituição proíbe expressamente juízes de se dedicarem à atividade político-partidária. A regulamentação do CNJ também veda manifestações públicas de apoio ou crítica a candidatos, lideranças e partidos e proíbe opiniões sobre processos pendentes.

Há outro limite igualmente importante. O art. 3º-A do Código de Processo Penal determina que o processo penal possui estrutura acusatória e proíbe a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação. Ou seja, juiz não pode se transformar em investigador, coordenador de operação policial ou integrante informal da acusação.

Por isso, é preciso diferenciar duas coisas. Agradecer uma oração, isoladamente, não é crime nem ilegalidade. Mas utilizar a posição de magistrado para produzir mobilização político-partidária ou ultrapassar os limites da função judicial entra em terreno expressamente vedado pela Constituição e pela legislação. Essa distinção é fundamental para que apoio popular não seja confundido com autorização jurídica.

Os métodos que marcaram a Lava Jato não podem reaparecer em 2026 dentro do próprio Supremo. O Brasil já conhece o risco de juízes que deixam a posição de árbitros e passam a agir como protagonistas de uma causa. André Mendonça deveria ser o primeiro a compreender que ministro do STF não precisa de torcida, palanque religioso ou mobilização popular. Precisa de imparcialidade, serenidade e absoluto respeito aos limites da lei.

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