A sequência de revelações envolvendo o ministro André Mendonça passou a levantar dúvidas sobre sua permanência à frente de investigações politicamente sensíveis. A retirada do sigilo de informações envolvendo Alexandre de Moraes ocorreu no mesmo momento em que novas revelações sobre repasses de Daniel Vorcaro ao projeto Dark Horse atingiam Flávio Bolsonaro e dominavam o noticiário.
Poucas horas depois, veio à tona que Mendonça havia mantido um encontro reservado com Vorcaro em 2025. Em seguida, surgiu a informação de que um juiz auxiliar do ministro ouviu o ex-banqueiro sem a presença da Polícia Federal, inclusive tratando de questões relacionadas à própria atuação da PF nas investigações.
O cenário se torna ainda mais delicado porque Mendonça concentra processos que podem atingir diretamente diferentes grupos políticos, entre eles o caso Master, investigações ligadas ao INSS, uma apuração envolvendo o filho de Lula e o procedimento relacionado ao Dark Horse, no qual Flávio Bolsonaro aparece diretamente nas negociações com Vorcaro.
Não há prova pública de que André Mendonça esteja agindo deliberadamente para proteger Flávio Bolsonaro. Mas o conjunto de episódios compromete a aparência de imparcialidade necessária para conduzir casos dessa dimensão. Diante disso, sua permanência nessas relatorias passou a representar um problema de confiança institucional para o STF.
A sequência de fatos revelados nas últimas horas colocou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em uma posição institucional cada vez mais difícil.
O problema deixou de ser apenas sua decisão de retirar o sigilo de informações envolvendo Alexandre de Moraes. Agora, o próprio Mendonça passou a ter de explicar sua relação com Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo do Banco Master e também do caso que envolve diretamente Flávio Bolsonaro.
Leia também: Áudios revelam articulação de Vorcaro para encontro reservado com André Mendonça; áudio
Na terça-feira, 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas a Vorcaro e Alexandre de Moraes. A divulgação imediatamente dominou o noticiário nacional.
Horas antes, porém, outro assunto ocupava as manchetes: a revista piauí havia revelado que dados do Coaf apontavam um novo repasse de cerca de R$ 8,5 milhões de Vorcaro ao fundo relacionado ao filme Dark Horse, projeto que envolve Flávio Bolsonaro.
A revelação contrariava a versão apresentada anteriormente pelo senador sobre os pagamentos destinados ao filme e reacendia um dos episódios mais incômodos de sua pré-campanha presidencial.
Flávio Bolsonaro já havia sido flagrado em áudio negociando com Vorcaro a busca de até US$ 24 milhões de dólares, aproximadamente R$ 134 milhões de reais na época, para financiar a produção sobre Jair Bolsonaro.
Não há prova de que André Mendonça tenha retirado o sigilo do caso Moraes com o objetivo de beneficiar Flávio Bolsonaro. Mas o efeito político foi evidente: o novo escândalo relacionado ao senador perdeu espaço no noticiário quase imediatamente.
A situação ficou ainda mais delicada nesta quarta-feira.
O jornalista Paulo Motoryn revelou que André Mendonça manteve um encontro reservado com Daniel Vorcaro em março de 2025. O ministro confirmou a reunião e afirmou que recebeu o empresário uma única vez para tratar de precatórios.
É verdade que Mendonça ainda não era relator do caso Master naquele momento. Mas, posteriormente, passou a comandar investigações nas quais Vorcaro aparece como personagem central.
E surgiu outro fato ainda mais sensível.
Segundo a CNN, um juiz auxiliar de André Mendonça ouviu Vorcaro na semana passada sem a presença da Polícia Federal. Entre os assuntos tratados estaria justamente a atuação da própria PF nas investigações.
Pode até haver explicação jurídica para o procedimento. Mas, institucionalmente, a situação é desconfortável demais para ser tratada como algo normal.
Mendonça concentra hoje processos de enorme repercussão política. Além das investigações relacionadas ao Banco Master, está à frente de casos envolvendo fraudes no INSS, uma apuração que alcança o filho do presidente Lula e o procedimento relacionado ao Dark Horse.
No caso do filme, porém, existe uma particularidade impossível de ignorar: Flávio Bolsonaro foi pessoalmente atrás de Daniel Vorcaro para levantar uma cifra milionária.
Enquanto informações envolvendo Alexandre de Moraes foram rapidamente expostas ao público, o processo que pode atingir Flávio Bolsonaro continua cercado de sigilo.
Esse contraste precisa ser explicado.
Também não pode ser ignorado que André Mendonça chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro.
A indicação política, sozinha, obviamente não torna um ministro parcial. O problema aparece quando esse vínculo histórico se soma a encontros reservados, contatos com investigados e decisões que produzem consequências políticas diretamente favoráveis à família de quem o indicou.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a envolver confiança institucional.
Não é necessário afirmar que André Mendonça esteja deliberadamente protegendo Flávio Bolsonaro para reconhecer que sua permanência nessas relatorias passou a produzir uma dúvida legítima sobre imparcialidade.
Ministro do Supremo não precisa apenas ser imparcial. Suas decisões também precisam transmitir independência e afastar qualquer aparência razoável de favorecimento.
No caso de André Mendonça, essa confiança foi seriamente atingida.
Por isso, diante do conjunto de fatos já conhecidos, sua permanência à frente das investigações relacionadas a Vorcaro e ao Dark Horse tornou-se difícil de sustentar.
Alexandre de Moraes deve ser investigado se houver elementos contra ele. O filho de Lula também. Daniel Vorcaro deve responder por tudo o que lhe for imputado dentro do devido processo legal.
E Flávio Bolsonaro não pode receber tratamento diferente.
Democracia também significa aplicar a mesma régua a todos, principalmente quando estão em jogo candidatos à Presidência da República e investigações capazes de interferir diretamente no ambiente eleitoral.
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