A nova ofensiva política dos trumpistas contra a ciência

Repetição de narrativas já desmentidas volta a ganhar espaço no debate público

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A convocação de Anthony Fauci pelo Senado dos Estados Unidos representa uma nova tentativa de transformar questões científicas complexas em instrumento de disputa política. Fauci, que teve papel central na resposta norte-americana à pandemia, voltou a ser alvo de Donald Trump e de seus seguidores, que procuram concentrar nele responsabilidades que nunca dependeram de uma única pessoa.

A pandemia foi enfrentada por uma ampla comunidade científica, formada por pesquisadores, universidades, hospitais, laboratórios e autoridades sanitárias de diversos países. Foi esse esforço coletivo que permitiu o desenvolvimento de vacinas, o aperfeiçoamento dos tratamentos e a adoção de medidas que reduziram casos graves e salvaram milhões de vidas.

Investigar a origem da Covid-19 é legítimo, mas transformar hipóteses ainda não comprovadas em certezas políticas é outra coisa. A estratégia lembra as acusações falsas de fraude eleitoral divulgadas por Trump após sua derrota para Joe Biden: repete-se uma narrativa sem provas até que ela seja aceita por parte da população.

A desinformação em saúde pública não pode ser tratada como uma opinião inofensiva. Quando alguém divulga deliberadamente informações falsas, apresenta-se como autoridade sem qualificação e incentiva comportamentos capazes de causar prejuízos à sociedade, deve responder civil, administrativa e, nos casos previstos em lei, criminalmente. A ciência pode ser questionada, mas não pode ser substituída por fanatismo, propaganda e teorias conspiratórias.

A convocação de Anthony Fauci pelo Senado dos Estados Unidos representa mais do que uma audiência sobre a origem da Covid-19. Ela integra uma nova ofensiva política destinada a reativar teorias conspiratórias, criar inimigos públicos e transformar questões científicas complexas em instrumentos eleitorais.

Fauci tornou-se alvo de Donald Trump e de seus seguidores desde o primeiro mandato do republicano. Agora, tenta-se atribuir a um único médico a responsabilidade por decisões que envolveram governos, universidades, hospitais, agências reguladoras e milhares de pesquisadores em todo o mundo.

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A pandemia não foi enfrentada por uma pessoa.

Houve uma mobilização internacional da comunidade científica, que produziu vacinas, aperfeiçoou tratamentos e estabeleceu medidas capazes de reduzir casos graves e mortes. Esse trabalho salvou milhões de vidas. Nenhuma audiência de caráter político pode apagar essa realidade.

Investigar a origem do vírus é legítimo. O que não é legítimo é apresentar hipóteses ainda não comprovadas como verdades definitivas, fabricar acusações pessoais e utilizar o Congresso para produzir factóides políticos.

Trump já empregou estratégia semelhante ao sustentar, sem provas, que houve fraude na eleição presidencial de 2020, vencida por Joe Biden. Agora, a mesma lógica reaparece na tentativa de transformar Fauci em símbolo de uma suposta conspiração científica.

É preciso dizer com clareza: ciência não se faz com gritos, fanatismo ou conveniência eleitoral. Faz-se com estudos, dados, revisão e confronto de evidências. Um grupo politicamente mobilizado não pode alterar a realidade científica apenas porque rejeita suas conclusões.

Também não se pode tratar a desinformação sobre saúde pública como uma opinião inofensiva. Mentiras sobre vacinas, medicamentos e doenças podem levar pessoas a rejeitar tratamentos, colocar terceiros em risco e prejudicar toda a sociedade.

A liberdade de expressão protege críticas, dúvidas e opiniões. Não deve, porém, funcionar como salvo-conduto para quem divulga deliberadamente informações falsas, apresenta-se como autoridade sem possuir qualificação e incentiva comportamentos perigosos.

Quando essa atuação causar dano concreto e estiver enquadrada em conduta prevista em lei, deve haver responsabilização civil, administrativa e, conforme o caso, criminal. Influência pública também gera responsabilidade.

Anthony Fauci não está acima de qualquer investigação. Mas investigação exige provas e imparcialidade. O que não se pode aceitar é um julgamento político em que o acusado já foi escolhido e a condenação foi escrita antes mesmo da análise dos fatos.

A ciência pode ser questionada. O que não pode é ser substituída por conspirações, fanatismo e propaganda eleitoral.

 

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