Pedido de Flávio a Trump acende alerta sobre risco de interferência dos EUA no Pix brasileiro
Risco real à soberania nacional
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas abriu uma crise que vai muito além do debate sobre segurança pública.
O episódio ganhou contornos ainda mais graves porque ocorreu após a atuação direta do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro, que afirmou ter pedido ao presidente Donald Trump a inclusão das facções brasileiras na lista americana de organizações terroristas.
O problema não está em combater o PCC e o CV. Essas organizações criminosas devem ser enfrentadas com rigor, inteligência, cooperação internacional e força do Estado brasileiro.
A questão é outra: ao transformar uma pauta interna de segurança pública em pedido político a uma potência estrangeira, Flávio ajudou a abrir uma porta perigosa para interferências externas sobre instituições, bancos, empresas e até sobre uma das maiores inovações financeiras do Brasil: o Pix.
Segundo o Planalto, medidas unilaterais dos Estados Unidos podem afetar o sistema financeiro brasileiro e atingir mecanismos nacionais como o Pix.
A preocupação é que bancos, fintechs e empresas que operam no Brasil passem a ser submetidos a pressões, bloqueios, investigações ou sanções externas, sob o argumento de combate ao terrorismo. Na prática, uma decisão tomada em Washington poderia produzir efeitos diretos sobre a vida econômica brasileira.
Esse é o ponto central da controvérsia. PCC e CV são organizações criminosas violentas, com atuação no tráfico, lavagem de dinheiro e domínio territorial. Mas terrorismo, no sentido jurídico e político tradicional, envolve motivações ideológicas, religiosas, étnicas ou políticas.
Quando esse conceito é ampliado de forma artificial, abre-se espaço para que outro país passe a tratar problemas internos brasileiros como assunto de segurança nacional americana.
Lula reagiu dizendo que o Brasil não aceitará ser tratado como país sem soberania. A fala do presidente ocorre em meio à preocupação de que a classificação americana seja usada não apenas contra facções, mas também como instrumento de pressão política e econômica. E esse risco não pode ser minimizado.
Flávio Bolsonaro tentou vender a medida como gesto de força contra o crime. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples: força para quem?
Para o Brasil, que pode ver seu sistema financeiro exposto a interferências externas?
Para os bancos e empresas nacionais, que podem enfrentar insegurança jurídica?
Para o cidadão comum, que usa o Pix todos os dias para pagar conta, receber salário, vender produto e movimentar pequenos negócios?
Segurança pública não pode ser tratada como peça de campanha eleitoral. Muito menos pode ser usada para pedir a outro país que intervenha, direta ou indiretamente, sobre temas sensíveis da soberania brasileira.
Combater o crime é dever do Estado. Entregar a classificação dos nossos problemas internos ao governo estrangeiro é outra coisa.
O Brasil precisa enfrentar o crime organizado com firmeza, tecnologia, inteligência financeira, cooperação policial e fortalecimento das instituições. Mas esse enfrentamento deve ser feito com respeito à Constituição, à soberania nacional e à economia brasileira.
Quando uma disputa eleitoral começa a colocar em risco o Pix, os bancos, as empresas e a autonomia do país, o debate deixa de ser apenas político. Passa a ser um alerta democrático.
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