Na economia, equipe de Flávio Bolsonaro se inspira no modelo Milei, enquanto Argentina enfrenta desemprego, crise social e retração industrial
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha e cotada para comandar a área econômica em eventual governo Flávio, afirma que reformas de Javier Milei servirão de inspiração para o Brasil
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A equipe econômica de Flávio Bolsonaro passou a citar o governo de Javier Milei, na Argentina, como referência para um eventual programa econômico no Brasil. A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e cotada para integrar o primeiro escalão de um eventual governo Flávio, afirmou que pretende se inspirar nas reformas adotadas por Milei, com foco em redução da burocracia, revisão de impostos, corte de despesas e atração de investimentos.
Entre as propostas apresentadas está um amplo “revogaço” de normas. Segundo Daniella, a equipe já teria identificado mais de mil obrigações e regulamentos que poderiam ser eliminados. A referência argentina, porém, também coloca em debate os efeitos sociais do ajuste conduzido por Milei, marcado por forte redução de gastos públicos, abertura econômica e desregulamentação. Ao mesmo tempo, a Argentina registrou queda expressiva da inflação e recuperação do PIB em períodos recentes.
Os indicadores sociais, contudo, continuam preocupantes. Dados oficiais apontam que 28,2% da população analisada pelo instituto argentino de estatísticas estava abaixo da linha da pobreza no segundo semestre de 2025, enquanto o desemprego chegou a 7,8% no primeiro trimestre de 2026. A desigualdade também apresentou piora recente, enquanto milhões de argentinos passaram a enfrentar dificuldades para manter o pagamento de despesas básicas.
A indústria é outro ponto de atenção. A produção manufatureira apresentou retração, milhares de empregos industriais foram perdidos e empresas encerraram suas atividades desde o início do governo Milei. Nesse cenário, a declaração da equipe de Flávio Bolsonaro abre uma discussão sobre quais aspectos do modelo argentino seriam efetivamente adotados no Brasil e como uma eventual política de ajuste fiscal poderia afetar emprego, renda, indústria e programas sociais.
Modelo argentino entra no programa de Flávio
A equipe econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) declarou que pretende utilizar medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei como inspiração para um eventual governo no Brasil.
A afirmação foi feita por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e atual coordenadora econômica da campanha de Flávio.
“Vamos usar de inspiração no que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina”, afirmou durante evento do Esfera Brasil. Daniella classificou Milei como um “ótimo exemplo” em áreas como atração de investimentos, redução da burocracia e impostos.
Daniella ocupa hoje posição central na elaboração do programa econômico de Flávio Bolsonaro e vem sendo apontada como um dos nomes cotados para comandar a Fazenda em eventual governo do candidato.
Em junho, o próprio Flávio afirmou que ela deverá integrar seu primeiro escalão, embora não tenha oficializado qual cargo ocuparia. Reportagens da Folha e do UOL já a apontaram como possível titular da área econômica.
“Revogaço” e corte de gastos
Entre as medidas apresentadas por Daniella está um amplo “revogaço” de normas. Segundo ela, a equipe já teria identificado mais de mil obrigações acessórias e regulamentos que poderiam ser retirados.
A coordenadora também defende um ajuste rápido das contas públicas e afirmou que um eventual governo Flávio pretende apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição voltada ao corte de despesas.
A referência à Argentina, entretanto, coloca no centro do debate também os efeitos econômicos e sociais registrados durante o governo Milei. O presidente argentino promoveu forte ajuste fiscal, redução dos gastos públicos, desregulamentação e abertura da economia.
Um dos resultados mais evidentes foi a desaceleração da inflação: em agosto de 2026, o índice mensal argentino ficou em 1,7%. O PIB também cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Pobreza caiu, mas ainda atinge milhões
Os números oficiais também mostram uma redução importante da pobreza depois da forte alta registrada no início do governo Milei. Segundo o INDEC, no segundo semestre de 2025, 28,2% dos argentinos que vivem nos 31 principais aglomerados urbanos estavam abaixo da linha da pobreza, enquanto 6,3% estavam em situação de indigência.
Isso representa aproximadamente 8,47 milhões de pessoas pobres e 1,88 milhão em situação de indigência apenas no universo pesquisado pelo instituto. A pobreza havia recuado 3,4 pontos percentuais em relação ao primeiro semestre de 2025.
O mercado de trabalho, porém, apresenta sinais de pressão. A taxa de desemprego chegou a 7,8% no primeiro trimestre de 2026, enquanto a subocupação atingiu 11,1%. O próprio INDEC também registrou aumento da desigualdade: o coeficiente de Gini passou de 0,435 no primeiro trimestre de 2025 para 0,442 no mesmo período de 2026.
Indústria perde empregos e empresas fecham
Outro ponto de atenção está na indústria argentina. Dados oficiais divulgados pelo INDEC mostram que a produção industrial manufatureira estava 5% menor em julho de 2026 na comparação anual. Reportagem recente da Folha registrou que a indústria argentina perdeu cerca de 90 mil postos de trabalho desde 2023 e que aproximadamente 30 mil empresas fecharam no período, em meio à abertura comercial promovida pelo governo.
O setor têxtil, a indústria de autopeças e outras atividades voltadas ao mercado interno estão entre as mais pressionadas pela concorrência de importados e pela redução do consumo.
A pressão chegou também ao orçamento das famílias. Reportagem da Associated Press publicada em setembro mostrou que milhões de argentinos passaram a recorrer ao crédito para financiar despesas básicas e que mais de 5 milhões de pessoas estavam com pagamentos atrasados. Entre os menores de 25 anos, a inadimplência alcançava 37,6%, segundo os dados citados pela agência.
Qual parte do modelo Milei chegaria ao Brasil?
A declaração da coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro abre, portanto, uma discussão que deverá acompanhar a campanha presidencial: quais medidas do modelo argentino seriam efetivamente transplantadas para a economia brasileira e quais mecanismos seriam utilizados para evitar impactos sobre emprego, renda, indústria e proteção social.
A experiência argentina reúne, simultaneamente, resultados como queda da inflação, recuperação recente do PIB e redução da pobreza em relação ao pico anterior, mas também desemprego elevado, aumento recente da desigualdade, endividamento das famílias e dificuldades importantes na indústria.
Até agora, Daniella Marques afirma que a inspiração em Milei estará principalmente na redução da burocracia, revisão de impostos, atração de investimentos e controle dos gastos públicos. A dimensão e a velocidade desse ajuste, bem como seus efeitos concretos sobre serviços públicos, Previdência, salário, emprego e políticas sociais, deverão depender das propostas detalhadas que a campanha de Flávio Bolsonaro apresentar ao longo da disputa eleitoral.
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